Padre conta como é exorcismo na prática e garante que filmes exageram: 'as coisas são muito mais tranquilas'

Padre exorcista garante que rito é bem mais tranquilo do que é aparece nos filmes A Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto (SP) acaba de nomear o prime...

Padre conta como é exorcismo na prática e garante que filmes exageram: 'as coisas são muito mais tranquilas'
Padre conta como é exorcismo na prática e garante que filmes exageram: 'as coisas são muito mais tranquilas' (Foto: Reprodução)

Padre exorcista garante que rito é bem mais tranquilo do que é aparece nos filmes A Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto (SP) acaba de nomear o primeiro padre exorcista da região diante de uma crescente demanda de pessoas em busca de respostas para aflições que vão além da compreensão humana e médica, segundo a Igreja Católica. Mas, diferente do que sugere o imaginário popular, o rito tem regras definidas pelo Código de Direito Canônico do Vaticano e consiste em um serviço de caridade e acolhimento para pessoas que enfrentam dificuldades e suspeitas sobre uma possível influência maligna em suas vidas. Nomeado pelo arcebispo Dom Moacir Silva para lidar com esses casos em mais de 20 municípios do interior de São Paulo, o padre Kleber Tostes Pedro afirma já ter presenciado casos de possessão, mas garante que eles são bem mais tranquilos do que se retrata em Hollywood. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "Ele [o filme] tem que fazer algo grandioso, algo que chame a atenção. Então, pega elementos que podem acontecer dentro do rito e dá um volume muito maior. Mas, dentro do rito do exorcismo, normalmente as coisas são muito mais tranquilas, mais controláveis do que a gente vê em filmes", afirma. Padre Kleber Tostes foi nomeado exorcista pela Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto (SP). Tiago Aureliano/EPTV Além disso, de acordo com ele, o exorcismo é a última etapa de um acompanhamento que conta com profissionais para diferenciar a influência do mal de doenças de ordem psiquiátrica e que consiste muito mais em escuta, oração e vontade de mudar de vida. "Na Igreja este ministério sempre existiu e o fato de agora ter essa nomeação para um padre exorcista em Ribeirão Preto, claro que se deve a uma demanda, a uma procura de pessoas que têm dúvidas em relação àquilo que estão passando, se porventura são situações de ordem espiritual, essa influência extraordinária do maligno", diz. A seguir, entenda as principais curiosidades sobre o exorcismo e seu significado dentro da Igreja Católica: O que é o exorcismo? O exorcismo é classificado pela Igreja como um rito sacramental, ou seja, um sinal sagrado que produz efeitos espirituais e ocorre quando a Igreja pede publicamente, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno. Na prática, é uma ação litúrgica para expulsar demônios. "É diferente dos sacramentos celebrados, como, por exemplo, batismo, casamento. Ele tem um rito próprio para ser seguido com vários elementos, desde as orações, proclamação da palavra, o uso da cruz, o uso da água benta, mas tudo isso de uma maneira muito ordenada e muito tranquila", explica. Desde quando a Igreja realiza exorcismos? A prática remonta aos tempos de Cristo que, segundo os registros bíblicos, concedia aos apóstolos a capacidade de expulsar espíritos impuros. Relatos de possessão e expulsão de demônios estão presentes nos Evangelhos - livros no Novo Testamento da Bíblia com relatos da vida de Jesus escritos por apóstolos ou pessoas próximas - e em toda a história do cristianismo, mas a organização do rito e a escrita de manuais se intensificaram no século 17. O rito hoje praticado pela Igreja foi atualizado pelo Vaticano em 1999 e consta no livro oficial "Ritual de Exorcismos e Outras Súplicas." O livro 'Ritual de Exoercismos e outras Súplicas' Tiago Aureliano/EPTV LEIA TAMBÉM Arquidiocese de Ribeirão Preto nomeia sacerdote para a prática do exorcismo Quem pode realizar o exorcismo? Na Igreja Católica, o exorcismo é regulado pelo Código de Direito Canônico. Apenas sacerdotes que tenham obtido licença especial e expressa do bispo ou arcebispo local - que por ofício são as primeiras autoridades habilitadas para a prática - podem realizar o rito. "O rito do exorcismo é exclusivo primeiramente do bispo daquela diocese, ele é o exorcista por excelência na diocese. No entanto, dependendo da demanda, da procura, o bipo ele tem várias outras atribuições no cuidado do seu ministério, ele pode delegar nomear um padre que em seu nome vai atender esses casos e quando necessário ministrar o rito." A Igreja exige que esse padre se destaque pela piedade, ciência, prudência e integridade de vida, além de possuir uma preparação específica. Foi o caso do padre Kleber, que tem 49 anos e é pároco responsável pela Paróquia Jesus Misericordioso e Santa Edwiges, do Jardim Nova Aliança, Zona Sul de Ribeirão Preto. Em 20 de julho, ele passou a ser oficialmente reconhecido como exorcista após uma publicação oficial da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ordenado em 2003, antes da nomeação, o sacerdote estudou sobre o assunto e já havia participado de exorcismos. "A minha experiência maior é até no sentido de estudos, de acompanhamentos, de ter feito uma formação específica para isso até recentemente, quando fui consultado acerca dessa responsabilidade de exercer esse ministério." Como o padre diferencia uma possessão de questões médicas? O acompanhamento é minucioso e, antes de qualquer conclusão, parte de uma análise sobre o fiel, se ele faz tratamentos médicos ou se passou por traumas que geraram transtornos psiquiátricos. A Igreja orienta que o exorcista não creia facilmente em possessão, devendo primeiro descartar patologias como epilepsia, esquizofrenia ou melancolia. "É feito com muita leveza, mas, ao mesmo tempo, com muito critério. Não são coisas feitas de imediato. A pessoa não vai chegar aqui e já vai ser colocada para receber o rito do exorcismo. Não." Sinais como falar línguas desconhecidas, possuir força desproporcional ou ter aversão extrema ao sagrado são apontados pelos estudiosos do tema como indícios, mas, mesmo assim, isso tudo é olhado com cautela, pois pode ter outras origens. Questionado, o padre Kleber prefere não detalhar as manifestações que já viu, para evitar que as pessoas façam associações equivocadas, mas ponderou que elas são extremamente raras. "Já presenciei, mas isso é muito, muito raro, então falo isso até para tranquilizar as pessoas e também para ninguém fazer associação." A ação do mal, segundo ele, ainda é um mistério dentro da Igreja, mas não necessariamente está ligada a problemas do dia como uma doença ou um problema financeiro. "Na maioria das vezes são causas realmente naturais. Então, é um mistério essa manifestação, esse acontecimento ainda para nós." Na maior parte das vezes, segundo o padre, a própria pessoa que recorre à Igreja tem ciência dessa desordem e ela própria é uma peça-chave no sucesso do exorcismo. "O próprio processo da libertação dela, isso é muito bonito, vai depender de 90% da caminhada da própria pessoa, daquilo que ela for realizando, fazendo, no acompanhamento com o padre exorcista." O padre atua sozinho no atendimento? Não. Embora a responsabilidade do ministério seja do padre, ele deve se cercar de uma rede de apoio. Isso inclui fiéis para auxiliar nas orações e profissionais de saúde, que ajudam a avaliar se os sintomas da pessoa têm causas psíquicas. "O ministério do exorcista tem a responsabilidade do próprio padre. Mas, é claro, eu me cerco de algumas pessoas que vão me ajudar nesse trabalho, sejam alguns fiéis da própria paróquia, que tenham uma vida de caminhada boa, seja dos próprios profissionais dentro dessas áreas, médicos, psicólogos, enfermeiros, psiquiatras, pessoas que possam contribuir nesse processo de acompanhamento de cada pessoa." Como funciona o rito do exorcismo? Quando de fato é considerado necessário, o rito oficial segue etapas bem definidas e é muito mais tranquilo do que as representações dos filmes de Hollywood, segundo o padre Kleber. O exorcismo inclui uma preparação com sinal da cruz e água benta, além de orações e dizeres específicos, uma deles pedindo a Deus a libertação e outra esconjurando o mal. "A gente crê que tudo acontece dentro de uma providência de Deus, dentro de uma permissão, porque o mal, por si mesmo, não é equivalente ao bem que é Deus. O mal é uma deturpação do bem." Segundo o padre Kleber, mesmo quando a pessoa é acompanhada não necessariamente será exorcizada. E, nos casos, necessários, o rito ocorre mais de uma vez. "Todo exorcismo, ele não acontece uma única vez, não é uma única sessão. Se faz uma sessão, está tudo resolvido. Ele vem também dentro dessa dinâmica de acompanhamento, de cuidado e tudo mais." Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca